Texto para a web tem o tamanho que ele merece

Há pouco mais de dez anos, assisti a uma palestra com o jornalista Vaguinaldo Marinheiro, atual diretor executivo do grupo A Tarde. Na época, o ainda secretário de redação da então Folha Online abordava uma questão que rende uma longa conversa a partir do dia (provavelmente) em que o primeiro profissional de texto descobriu o HTML: qual o tamanho de um texto para a web?

A resposta mais frequente ainda é o velho “na Internet, os textos precisam ser curtos”. A máxima, que em algumas redações e agências funciona como um dogma, tem em suas origens um artigo do especialista em usabilidade Jakob Nielsen. Em How Users Read on the Web, escrito em 1997, Nielsen aponta: a maioria dos usuários não lêem palavra por palavra, mas eles passam os olhos pela tela, identificando palavras-chave e elementos de quebra — títulos, intertítulos, links, listas etc.

Leia também: Cinco motivos para você preferir textos curtos

Ele está certo: uma página bem editada é mais persuasiva que outra onde as palavras parecem jogadas de uma vez. A discussão poderia terminar se lembrarmos que o comportamento de um leitor de ocasião, dito como “padrão”, é diferente de um usuário interessado no tema. Além de ler tudo, provavelmente irá procurar por outras referências, reforçando a importância do hipertexto (cuja lógica está na gênese da web) e da multiplicidade de linguagens, como fotos, ilustrações, clipes de áudio ou vídeo. O desafio, desde os primórdios da web, é atender a estes dois perfis.

Long form journalism
Fim da discussão? Longe disso. Desde 2012, ano em que o fundador do Twitter Evan Williams lançou o Medium (plataforma que valoriza a publicação de textos bem elaborados), popularizou-se nos EUA a expressão “long form journalism” — ou ainda em um termo só, “longform“, cuja explicação é bem fácil de entender: histórias amplas, aprofundadas… Longas.

Dê uma olhada neste texto do Philipe Kling David, editor do Mundo Gump, sobre uma estranha emissora de rádio russa. Depois responda: é um bom exemplo de long form journalism? Mais do que isso: o assunto não te despertou curiosidade o suficiente para ver tudo?

Outro exemplo: o projeto Longform.org, que sugere artigos.

Recentemente, no entanto, a “onda” do long form journalism foi alvo de críticas na revista The Atlantic e no jornal The New York Times. Ambos citam o fato de veículos como Buzzfeed, acostumado a notas de consumo rápido, contratar um “editor de formatos long form“. James Bennet, no primeiro artigo, questiona o uso do termo para um gênero comum em revistas. Já no segundo, Jonathan Mahler avalia: o problema deste “revival dos textos de revista” se aproxima de um fetiche. Ou seja, textos longos são frequentemente celebrados apenas pela sua quantidade de palavras.

Afinal, qual a resposta?
Finalmente, podemos voltar às primeiras linhas. Diante da pergunta que parece antiga mas, ao que tudo indica, ainda ressoa com força, Vaguinaldo Marinheiro deu a resposta que considero definitiva até hoje: “o texto tem o tamanho que ele merece”. Isto é: se o assunto for relevante e o repórter tiver material para escrever cinquenta parágrafos, seja em uma única página ou em fragmentos conectados por links, ele deve fazê-lo. Nem todas as pautas, evidentemente, exigem profundidade.

Pode ser antiga para os padrões do nosso tempo, mas esta ainda é a melhor resposta. Como naquele comercial da GloboNews, que faz uma analogia entre informação e comida, há momentos em que a gente se satisfaz com fast-food. Mas também é importante se alimentar direito.∞


André Rosa é jornalista, pesquisador e professor em cursos livres, de graduação e pós graduação, sempre procurando promover o encontro entre a comunicação e a tecnologia. Seu blog tem 10 anos de vida. Twitter: @andremarmota.

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