Instituto Royal é a reedição do caso Escola Base

O combustível do caso Instituto Royal é o conflito entre ativistas e pesquisadores, mas a comunicação é a faísca da polêmica.

A comoção tomou conta das redes sociais na sexta-feira (18). Devo confessar: num primeiro momento, também vi o resgate dos animais em São Roque como um ato épico, uma vitória do bem contra o mal. Que crueldade provocar sofrimento e morte a cães tão dóceis para desenvolver cosméticos! Era mais ou menos esse o sentimento geral nas redes sociais. Ai de quem ousasse discordar.

Mas aí veio a apuração da imprensa e, com ela, a nossa culpa (minha e sua) por termos acreditado em duas mentiras. A primeira: os cães resgatados sofriam maus-tratos. A segunda: eles eram usados para o desenvolvimento de cosméticos.

Bastou um pouquinho de apuração jornalística para sabermos que o Ministério Público vinha desde 2012 investigando denúncias de maus-tratos aos cães. Nenhuma irregularidade foi encontrada. E não há indício, prova nem razão para se acreditar que os cães fossem usados para desenvolver cosméticos.

Temos de admitir: nós, usuários de redes sociais e adoradores de cães, fomos tolos.

Um caso com vários pontos de similaridade com esse aconteceu na década de 1990, em São Paulo. A Escola Base foi acusada de cometer e permitir abusos sexuais contra crianças. Somente após a escola ter sido fechada e os donos, arruinados, é que a imprensa percebeu que as acusações eram falsas.

Temos de recordar: nós, telespectadores e adoradores de crianças, já tínhamos sido tolos naquela ocasião.

A diferença entre os dois casos está no autor da denúncia infundada. Contra a escola, foi a imprensa. Desta vez, foram as redes sociais.

Do ponto de vista da comunicação empresarial, o erro do Instituto Royal foi ter demorado a se pronunciar. Só deu as caras depois de a crise ter ser formado. Quando decidiu se posicionar, o fez com clareza. Silvia Ortiz, diretora da empresa, publicou um vídeo na web e desfez a imagem de monstros até então conferida a ela e a sua equipe. A atuação da assessoria de imprensa da empresa na gestão da crise foi elogiada por alguns profissionais da área e criticada por outros.

Em seu depoimento, a diretora afirmou que os cães são usados no desenvolvimento de tratamentos para doenças como câncer, diabetes, hipertensão e epilepsia, além de ajudar no desenvolvimento de antibióticos e analgésicos. Ela desmente a versão de que o instituto use os beagles em prol dos cosméticos.

Ouvir os dois lados de uma história não é a melhor forma de fazer uma apuração equilibrada dos fatos. É a única.

O caso teve, sim, um lado positivo: trouxe à tona o debate sobre o uso de animais como cobaias. Mas novamente os ativistas se mostram despreparados para entrar numa discussão proativa. Quando questionados sobre possíveis substitutos de animais em pesquisas, saem pela tangente: “Ah, sei lá, a ciência que arrume um jeito”. Mas que jeito? Os especialistas ouvidos por jornalistas deixam claro: não existe alternativa.

Para se posicionar, é preciso ter argumentos. Para argumentar, é preciso estudar o assunto e ouvir especialistas. É isso que todo bom profissional de comunicação faz. Os ativistas pecaram também nesse quesito. Ficaram no achismo, beirando a ficção científica.

O que também diferencia os dois casos é a admissão do erro. Em 1994, a imprensa assumiu ter pisado feio na bola. Desta vez, é diferente. Ativistas, agora com poder de mídia (social), não dão o braço a torcer. Em vez disso, tentam criar mais fatos para comprovar que o Instituto Royal é, de fato, o monstro que eles desenharam há uma semana.

Dias atrás, circulou, por exemplo, o documento que os ativistas dizem ser a prova da má intenção do laboratório. Trata-se de um certificado do Inmetro que autoriza o Instituto Royal a fazer testes para diversas finalidades. Ao verem a palavra cosméticos presente na lista, alguns bradaram: “Está vendo? Os beagles estavam lá para o desenvolvimento de cosméticos”. Como se as outras pessoas fossem incapazes de ler o restante da lista, que também cita produtos para saúde, dispositivos médicos, produtos farmacêuticos e outros.

Eis mais uma falha na estratégia de comunicação do movimento, se é que há uma. O público às vezes não percebe uma tentativa de manipulação, é verdade. Mas, quando percebe, não perdoa. Convenhamos, exibir uma lista completa e pedir aos outros que olhem apenas um item não é lá uma forma muito eficiente nem inteligente de ludibriar alguém.

Assustador é o fato de que o princípio da isenção e a obrigatoriedade de uma boa apuração passam longe da mídia social. Este foi apenas mais um caso de julgamento antes mesmo que houvesse uma acusação embasada.

O Facebook abriga a cultura perigosa ― que já destruiu o Orkut ― de que, mais importante do que ser consistente, é fazer barulho. Cuidado: amanhã o alvo pode ser você.∞


PS: O debate que deu origem a este post começou com uma indagação do amigo Temo Mori, do Social Media Cast, no Facebook, seguida de um debate.

Cassio Politi é fundador da Tracto e do All Metrics. Foi em 2016 palestrante do Content Marketing World, o principal evento do tema no mundo, em Cleveland, nos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, foi apontado pela Traackr como o 9º mais influente profissional de marketing de conteúdo da América Latina. E aparece na lista dos 50 mais influentes do mundo publicada pelo Top Blogger.

Foi eleito o profissional de content marketing do ano pela Digitalks em 2015. É desde 2014 o único sul-americano a compor o seleto júri do Content Marketing Awards. É autor do livro Content Marketing - O Conteúdo que Gera Resultados, publicado em 2013. Presta consultoria para grandes empresas brasileiras e multinacionais. Já conduziu palestras, treinamentos in company e cursos abertos em 25 estados.

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