Como Reginaldo Leme deu um dos maiores furos de reportagem da história do jornalismo esportivo

Foto cedida por Antonio Colucci

Foto cedida por Antonio Colucci

Cerca de 15 jornalistas formavam uma rodinha com Nelson Piquet em um fim de semana de GP de Formula 1. O ano era 2009. O ex-piloto era evasivo nas explicações do porquê de ter decidido acompanhar de perto a carreira de seu filho, Nelsinho, na equipe Renault. Ao seu estilo imprevisível, com um quê de gozador, deixou no ar a existência de um motivo efetivo, mas antecipou que era algo que só viria a público dali a algum tempo.

Reginaldo Leme era um dos repórteres na rodinha. Depois do bate-papo, o grupo se dispersou. Cada um foi cuidar dos seus afazeres, mas Reginaldo voltou ao encontro de Piquet e com ele foi tomar um café.

― Que coisa é essa que vai estourar? ― perguntou o repórter da TV Globo.
― Bom, já que só você voltou para falar comigo, vai ser o único a saber.

O relacionamento de Nelsinho com o chefe de equipe, o italiano Flavio Briatore, ia de mal a pior. Internamente, havia mais do que descontentamento: adormecia nos bastidores o segredo de uma tramoia realizada no ano anterior. No GP de Cingapura de 2008, Nelsinho havia causado um acidente propositalmente. A batida no muro obrigara a entrada do safety car (carro de segurança) na pista. Graças à combinação das características do percurso com a estratégia de prova de cada equipe e com o momento do acidente, seu então companheiro de equipe, o espanhol Fernando Alonso, se beneficiara da batida e vencera a prova.

Piquet só ficou sabendo do caso em 2009 e decidiu usá-lo contra Briatore, o mentor da trapaça. Ele estava decidido a denunciar o caso para a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) e compartilhou essa informação com o jornalista.

― Não coloque nada no ar agora ― Piquet orientou Reginaldo. ― Você vai dar sozinho essa notícia, mas na hora certa. Confie em mim, isso terá repercussão mundial.

Guardar uma informação tão importante seria angustiante. E foi. Semanas de espera se passaram até que o telefone de Reginaldo tocou, na véspera do GP de Spa-Francorchamps, na Bélgica, em agosto de 2009. O caso já estava sendo investigado pelas autoridades do automobilismo. Se havia um momento certo para soltar a informação, ele havia chegado.

Reginaldo precisava saber exatamente o que ia dizer. No sábado à noite, foi para o hotel escrever o texto que soltaria na transmissão da corrida pela TV Globo no dia seguinte.

Na manhã de domingo ― madrugada no Brasil ―, bem antes da largada, um telefonema do repórter tirou Piquet da cama. Era preciso dar a última polida nas palavras. O ex-piloto fez uma observação oportuna:

― A parte final do texto vai te comprometer. Vão perguntar quem te contou e você não vai saber dizer.

Reginaldo fez as últimas modificações. A bomba estava pronta.

Começou, enfim, a transmissão. Ninguém sabia da carta que ele carregava na manga ― nem mesmo Galvão Bueno e Luciano Burti, seus colegas de transmissão. Reginaldo esperou um momento de monotonia da prova para noticiar de forma curta e objetiva o que havia acontecido nos bastidores da Renault.

Aos telespectadores, Galvão Bueno pareceu reagir com surpresa porque estava surpreso. Em poucos minutos, o furo ganhou repercussão na mídia do mundo inteiro.

Após a transmissão da prova, muitos dos mais de mil jornalistas de todo o mundo que ocupavam a sala de imprensa foram conversar com Reginaldo. Alguns queriam saber mais, outros desejavam que a informação fosse falsa. Até o alertaram para a mentira que ele havia bancado. “Não houve nenhuma armação”, advertiram.

Qualquer pessoa ficaria receoso ao ouvir aquilo, e com Reginaldo não foi diferente. Embora confiasse em sua fonte, as vozes contrárias eram de jornalistas igualmente experientes e repletos de informação. A guerra de versões acabou definitivamente quando Briatore foi demitido da Renault para, em julgamento posterior, ser banido da F1 pela FIA. (Em 2010, um tribunal da França anulou o banimento, mas até agora Briatore não voltou à categoria.)

Para não dizer que o processo de apuração e divulgação da reportagem superexclusiva foi perfeito, Reginaldo faz uma autocrítica.

“Antes da transmissão, eu deveria ter avisado ao repórter e ao câmera que daria a notícia. Assim, eles se preparariam para mostrar o Briatore e eventualmente entrevistá-lo. Foi um erro meu.”

Encontros Esportivos
Nas reuniões de diretoria da Aceesp, dois casos são tratados como os grandes furos de reportagem da história recente do jornalismo esportivo. Este, do Reginaldo Leme, e a Máfia do Apito, do André Rizek, atualmente no SporTV.

Reginaldo contou este e outros causos na edição de 4 de março dos Encontros Esportivos, que  a Tracto realiza regularmente em parceria com a Aceesp. O evento é sempre em São Paulo, com entrada gratuita.∞

Cassio Politi é fundador da Tracto e do All Metrics. Foi em 2016 palestrante do Content Marketing World, o principal evento do tema no mundo, em Cleveland, nos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, foi apontado pela Traackr como o 9º mais influente profissional de marketing de conteúdo da América Latina. E aparece na lista dos 50 mais influentes do mundo publicada pelo Top Blogger.

Foi eleito o profissional de content marketing do ano pela Digitalks em 2015. É desde 2014 o único sul-americano a compor o seleto júri do Content Marketing Awards. É autor do livro Content Marketing - O Conteúdo que Gera Resultados, publicado em 2013. Presta consultoria para grandes empresas brasileiras e multinacionais. Já conduziu palestras, treinamentos in company e cursos abertos em 25 estados.

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