Como definir “conteúdo gourmet” no jornalismo esportivo?

Os pouco mais de oitenta participantes do Seminário Jornalismo Esportivo ― Grandes Coberturas, organizado pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais na última segunda-feira (20), reforçaram lições que há tempos já estão impressas na cartilha. Seja qual for a plataforma, contar boas histórias e produzir reportagens investigativas permanecem a base do jornalismo. No entanto, profissionais precisam conhecer minimamente os sites de relacionamento e desenvolver habilidades multimídia. Ao mesmo tempo, emissoras de TV devem prestar atenção no comportamento do público munido de dispositivos móveis, a chamada “segunda tela”.

Muito bem, hora de virar a página. Durante o evento, promovido em parceria com a Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp) e apoiado pela Tracto, pouco se falou em como os veículos terão fôlego financeiro para seguir adiante. É o assunto que definitivamente interessa aos donos de veículos – e, por tabela, afeta quem trabalha para eles. Ao menos uma questão parece evidente: o modelo baseado apenas em publicidade não está dando conta.

Nesse contexto, o tema apareceu nas entrelinhas quando foi mencionada a decisão da Globo em retirar os links de suas postagens no Facebook (assunto tratado pela Tracto recentemente), sinalizando um posicionamento diante do investimento publicitário no meio digital. Mas foi Alessandro Abate, editor do Lance!, quem deu a manchete: na esteira de Folha, Estadão, Zero Hora e outros jornais, o grupo prepara seu projeto de paywall, isto é, cobrança por acesso à conteúdo.

Ainda que os resultados do The New Work Times e Wall Street Journal animem os defensores do formato, não há unanimidade. O próprio Abate demonstrou que a ideia precisa amadurecer, ao mesmo tempo em que apresenta um argumento de defesa. “O brasileiro faz de tudo para burlar estes sistemas, pede a senha do amigo, entre outras ações. Mas ao mesmo tempo, percebemos que existe público interessado em pagar quando isso representa algo premium“, afirmou.

“Conteúdo gourmet”
Para reforçar o discurso, Abate fez uma comparação com restaurantes que, mesmo oferecendo pratos comuns, preparam versões de alto nível, capricham em experiências e apresentações, transformam a cozinha em atelier. “Este tipo de consumidor paga um pouco mais porque deseja ser vip”, exemplificou. É possível pensar que, seguindo por esta metáfora o caminho percorrido pelo brigadeiro, logo teremos “conteúdo esportivo gourmet”, com preços diferenciados.

Em princípio, a lógica até faz sentido. Mas se qualquer um pode embalar uma mistura cozida de chocolate e leite condensado com fitas coloridas e chamar de “gourmet”, é preciso perguntar por que alguém pagaria a mais por alguma coisa que parece comum. A primeira resposta óbvia diz respeito a material exclusivo, ou seja, informações que vão além do que já se encontra com facilidade em outro lugar, elaboradas a partir de rigorosa investigação jornalística. E o que mais?

Foto: Reprodução/Gazeta Esportiva.Net

Um dos maiores ativos que qualquer veículo possui é seu arquivo. Numa época em que a preocupação com o tempo real prevalece, o acúmulo de dados e seu potencial uso ficam para depois. O que dizer, por exemplo, do acervo de A Gazeta Esportiva? O jornal, que nasceu suplemento em 1928 e circulou individualmente entre 1947 e 2001, trouxe ainda preciosidades como a revista semanal A Gazeta Ilustrada. Quanto você pagaria, por exemplo, por edições que contam a história do futebol de várzea paulistano, digitalizada para iPad? Ou ainda por uma edição do raríssimo História do Futebol do Brasil, de Thomaz Mazzoni, contemplando o período entre 1894 e 1950?

Pensamento computacional
Evidentemente, ideias como esta devem estar na pauta do coordenador do Acervo Gazeta, Luiz Casimiro. Outras, no entanto, podem estar em alguma gaveta do 12º andar do prédio na Paulista 900. Há uns dez anos, um projeto do então chefe de redação Geraldo Silveira pretendia apresentar páginas especiais, contando histórias e reunindo estatísticas de grandes confrontos e clássicos regionais. Alguns levantamentos foram feitos, mas a ideia parou em limitações tecnológicas.

Nos dias de hoje, um profissional de redação capaz de pensar como um programador (habilidade discutida com frequencia em webinares da Tracto) já consegue imaginar um sistema capaz de cruzar dados históricos e exibir dinamicamente os resultados desejados a partir de filtros definidos pelo usuário (exibir por campeonatos, por estádios, por placares etc), apresentar fragmentos informativos relacionados à pesquisa (como páginas de jornal antigas, fotos, narrações)…

Claro que, se a criação de sistemas específicos para o jornalismo esportivo fosse uma tarefa simples, o Futpedia do Globoesporte.com exibiria mais funcionalidades. Mas trata-se de um exemplo de informação estruturada que, seguramente, muitos pagariam. Mais do que isso: é um ponto de partida para outras propostas baseadas nesta filosofia – apenas um dos caminhos possíveis para incrementar o cardápio.∞


André Rosa é jornalista, pesquisador e professor em cursos livres, de graduação e pós graduação, sempre procurando promover o encontro entre a comunicação e a tecnologia. Seu blog tem 10 anos de vida. Twitter: @andremarmota.

→ Veja todos os artigos de André Rosa na Tracto.
 

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