A leveza de Joelmir Beting

Eu era primeiranista de Jornalismo da faculdade Cásper Líbero em 1995, quando fui assistir a um evento voltado para estudantes promovido pelo jornal O Estado de S.Paulo.

Uma das atrações principais era Joelmir Beting, colunista do Estadão que fazia no Jornal Nacional os comentários que me permitiam entender o complexo cenário econômico do Brasil. Traduzia com leveza peculiar o economês.

“O Jornal Nacional me dá 30 segundos para explicar o que acontece na economia de modo que todos compreendam, da minha empregada doméstica ao presidente da República”.

A frase estava no contexto de uma comparação entre a linguagem de TV e outros meios de comunicação. Joelmir contou que, certa vez, nos anos 70, acompanhou Fernando Henrique Cardoso em visita a metalúrgicos na Grande São Paulo. Entre os operários, provavelmente estava Lula, o candidato derrotado por FHC no ano anterior e por Color seis anos antes. Joelmir mostrou que reviravoltas são o tempero do jornalismo. Disse isso de forma ilustrada, bem humorada e misturada a suas outras paixões: o futebol e o Palmeiras.

“Dois anos atrás, quem diria que o Brasil teria uma moeda forte, não teria inflação e ganharia a Copa do Mundo [de 1994] com seu segundo time? Porque o primeiro time ficou no Palestra Itália durante a Copa.”

Joelmir aproveitou para contar um fato histórico que a maioria daqueles jovens estudantes desconhecia até então. Em março de 1961, depois de assistir a um golaço de Pelé nos 3 a 1 do Santos sobre o Fluminense, no Maracanã, o então jovem repórter do jornal O Esporte propôs ao chefe Walter Lacerda que se registrasse o feito com uma placa.

Joelmir mandou fazer a placa numa loja da Praça da Sé, em São Paulo. Dias depois, foi inaugurada no Maracanã. A partir dali, a cada golaço, a imprensa esportiva reagia: “esse gol também merece uma placa”. E assim nasceu o termo gol de placa.

Naqueles meados de 1995, aparelho celular ainda era um artigo restrito a uma pequena parcela da população. Joelmir, que era acionado constantemente por sua equipe de jornalistas no Estadão, explicou por que fazia questão de não ter celular naquele momento.

“Preciso ter privacidade em dois lugares: em meu carro e em meu banheiro”.

Em geral, os palestrantes terminavam suas falas e não perdiam tempo com aqueles aspirantes a jornalistas. Voltavam apressados para a redação. Joelmir, em vez disso, desceu do palco e foi tomar um café. Ficou batendo papo com a garotada.

Fiquei na rodinha tentando absorver tudo o que dissesse. Afinal, quando é que eu teria a oportunidade de conversar novamente com ele? A oportunidade viria precisamente dali a 12 anos, em março de 2007, depois de eu ter me formado, passado por algumas redações, criado uma escola de cursos livres para jornalistas e me tornado diretor dos cursos do Comunique-se.

Nos tempos de repórter esportivo, tinha conhecido e criado uma ótima relação com Mauro Beting, Sérgio Patrick, Leandro Quesada, José Silvério. Decidi, então, convidar a Rádio Bandeirantes para ser parceira num curso sobre radiojornalismo. Ficou acertado que um dos professores seria Joelmir.

Ele chegou cedo para a sua aula. Ficamos conversando sobre vinhos, que ele saboreava, estudava e conhecia. Em certo momento, interrompeu a conversa e perguntou onde havia um banheiro de uma forma que passei a copiar.

“Onde tem uma segunda porta à direita?”

A aula de Joelmir era restrita a apenas 30 jornalistas e estava prevista para terminar às 10 horas da noite. Uma das staffs do curso entrou discretamente na sala e veio me avisar que ele já havia estourado o tempo em 20 minutos. Respondi que ela não se preocupasse. Afinal, ninguém arredara o pé da sala.

Joelmir manteve os alunos hipnotizados até quase 11 da noite. E o que fez depois? Ficou batendo papo com a turma após o curso. Mais maduro, pude entender por que agia assim. Simplesmente porque conversar com os outros lhe dava prazer. Simplesmente porque era um sujeito simples. Extremamente simples.

Pouco tempo depois, recebeu o Prêmio Comunique-se na mesma ocasião em que foi homenageado por seus 50 anos de carreira. Subiu ao palco, recebeu o troféu e fez um breve agradecimento assim:

“Quero dizer que vou morrer aos 95 anos, provavelmente assassinado por um jovem marido enciumado”.

Sua profecia não se concretizou por causa de um acidente vascular encefálico hemorrágico (AVE) decorrente de uma doença autoimune. À 0h55 do dia 29 de novembro, Joelmir decidiu ir embora para levar um pouco de leveza e bom humor às almas que habitam o lado de lá da vida.∞

Cassio Politi é fundador da Tracto e do All Metrics. Foi em 2016 palestrante do Content Marketing World, o principal evento do tema no mundo, em Cleveland, nos Estados Unidos. Nesse mesmo ano, foi apontado pela Traackr como o 9º mais influente profissional de marketing de conteúdo da América Latina. E aparece na lista dos 50 mais influentes do mundo publicada pelo Top Blogger.

Foi eleito o profissional de content marketing do ano pela Digitalks em 2015. É desde 2014 o único sul-americano a compor o seleto júri do Content Marketing Awards. É autor do livro Content Marketing - O Conteúdo que Gera Resultados, publicado em 2013. Presta consultoria para grandes empresas brasileiras e multinacionais. Já conduziu palestras, treinamentos in company e cursos abertos em 25 estados.

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