A imprensa, os beagles e a ética

Em trocas de e-mails com Cassio Politi, a respeito de seu artigo “Intituto Royal é reedição do caso Escola Base”, debatíamos o comportamento da imprensa sobre a recente invasão do laboratório do Instituto Royal e também a postura dos ativistas envolvidos no episódio, quando surgiu a ideia de que eu escrevesse este texto, como um contraponto aos argumentos listados por ele. Agora, que o estou redigindo, parece-me que o presente artigo não é propriamente um contraponto, mas, possivelmente, um complemento à coluna elaborada pelo meu colega.

Do ponto de vista da cobertura jornalística, penso que ainda é cedo para avaliar se os danos ao Instituto Royal foram tão profundos quantos aqueles causados aos proprietários da Escola Base. Isso porque, contrariamente ao ocorrido no caso dos supostos abusos sofridos pelas crianças alunas da Escola Base, notei um amplo apoio da grande imprensa e do governo federal, por meio do Ministério da Ciência e Tecnologia, ao Instituto Royal, mesmo antes de concluídas as investigações relacionadas ao caso. Em muitos veículos de comunicação, a imagem de “ativistas-terroristas” foi o principal mote das pautas desenvolvidas.

Entretanto, verificando mais a fundo as reportagens da imprensa brasileira ao longo desses dias, percebe-se que muitas questões interessantes surgem para análise. Pontos muito relevantes para contribuir na reflexão a respeito do resgate dos quase 180 beagles e quase 10 coelhos ocorrido na noite de 18 de outubro. Não há dúvidas de que todo esse episódio revela muito mais sobre nós, humanos, do que sobre os bichos-cobaias do Instituto Royal de São Roque, interior de São Paulo.

Parece claro que o grande ponto trazido à tona por esse assunto não está centrado na utilização ou não de animais em testes farmacológicos – estamos longe de obter um consenso em relação a isso –, mas da ética humana no tocante a estes processos. Espécies são levadas a laboratórios, no intuito de atuar como cobaias em testes para o desenvolvimento de remédios que, no futuro salvarão milhares de vidas humanas. Não há dúvida sobre os papéis a serem desempenhados aqui. Quem serve e quem é servido. Entretanto, os pontos passíveis de questionamento são: a forma como estes animais são tratados e o emprego de recursos públicos utilizados nestes trabalhos. O Brasil, por meio da Lei Arouca, instituída em 2008, tem por objetivo garantir a minimização de sofrimento e a inspeção constante das pesquisas realizadas, por meio de uma comissão composta por médicos, biólogos e membros de sociedades protetoras dos animais. Ou seja, temos uma legislação especificamente voltada para esse assunto.

No caso do Instituto Royal, contrariamente ao que vem sendo divulgado pela grande imprensa, ainda há questões a serem esclarecidas, como a sua data de inscrição no Conselho Nacional de Experimentação Animal (Concea) – afinal, notícia publicada no portal G1 afirma que, apesar de o pedido de inscrição ter ocorrido em 2011, somente em setembro deste ano o Instituto Royal foi devidamente credenciado. Ainda de acordo com a mesma reportagem, a assessoria de imprensa do laboratório confirma que, durante este período (mesmo sem credenciamento), o instituto desenvolveu testes em animais, porém todos de acordo com a Lei Arouca. O processo, de acordo com o coordenador do Concea, Marcelo Morales, foi feito dentro da regularidade. Contudo, chama a atenção a denúncia que vem sendo apurada pela Comissão de Proteção e Defesa Animal da OAB-SP de que o Instituto Royal teria recebido recursos públicos federais na forma de aporte financeiro antes de sua inscrição efetiva no órgão do Ministério de Ciência e Tecnologia. A correta utilização dos recursos públicos é algo do interesse de todos os brasileiros, sejam eles simpáticos ou não à causa dos beagles de São Roque. É preciso, no entanto, aguardar o decorrer das investigações sobre este e alguns outros pontos para, então, juntar informações suficientes para formar uma opinião sobre o assunto.

No que se refere às pessoas que invadiram o laboratório, é preciso pensar sobre o conceito de ativismo praticado. Seria coerente pressupor que quem diz preservar a vida não possa nem deva ser adepto de forma alguma de violência. Neste caso, libertar animais supostamente vítimas de maus-tratos não poderia envolver encapuzados depredando coisas pelo caminho e confrontando policiais, com a justificativa de “proteger a operação de resgate dos animais”. Essa atitude deu vazão para colunistas como Reinaldo Azevedo utilizar termos como “terroristas” para se referir ao grupo invasor em posts de seu blog no site da Revista Veja. Será que este é o ativismo do qual precisamos? Seria ele capaz de sustentar posturas como a invasão ao Instituto Royal, da forma como ela aconteceu?

Em chamada de capa nesta semana, a Revista Época apela para um sensacionalismo barato, ao exibir a foto de um beagle com uma manchete em letras garrafais: “A vida dele vale tanto quanto a sua?”. O apelo sentimental e o senso de preservação do leitor são claramente estimulados pela manchete, que, no contraponto à meiguice inspirada pela imagem do animal, promove um embate interno na mente de quem lê e do qual, fatalmente, sairão leitores a favor de sua própria vida, e não à do cachorrinho. Todavia, a leitura inspirou-me uma dúvida crucial: será que esta é a pergunta a ser feita? Justamente pelo fato de o ser humano ser a criatura que se diferencia das demais por sua capacidade de pensamento complexo, sua consciência elaborada e sua inteligência, é possível concluir que há tantos fatores em jogo neste contexto, que tornam no mínimo inadequada a pergunta de Época.

Emissoras de televisão dividem-se sobre a cobertura do assunto. Exemplos: em reportagens vinculadas no domingo, 27 de outubro, enquanto a Record abusava de imagens com depoimentos como o da apresentadora Luisa Mell, ativista e musa do movimento de libertação dos beagles, a Globo ateve-se a um panorama supostamente científico – e mais simpático ao Instituto Royal –, embora pretensioso, anunciando, já nas chamadas do programa, durante a semana, imparcialidade para munir os telespectadores de informações para que estes pudessem optar entre ser contra ou a favor dos testes que utilizam animais como cobaias. De início, já penso que o apresentador não deveria enfatizar algo que certamente a reportagem do programa não teria condições de cumprir. Nos dias de hoje, até os mais ingênuos sabem que não existe abordagem imparcial e ter a pretensão de esgotar um assunto tão polêmico em menos de 10 minutos de matéria é simplesmente o auge de um jornalismo autoconfiante.

O fogo cruzado de informações falsas misturadas às verdadeiras nas redes sociais também não contribui para o esclarecimento da população. Manifestações em Facebook, Instagram, Twitter e outros canais precisam ser cuidadosamente observadas e confrontadas com o que a imprensa tem divulgado, no intuito de chegarmos o mais próximo possível dos fatos. Emissoras de televisão, rádio, jornais, revistas e sites jornalísticos não podem perder de vista a sua função primordial de informar e estimular, de forma consciente, a reflexão de seu público sobre o fato.

Há diversas peças deste complexo quebra-cabeça espalhadas pelos veículos de comunicação. Em 2009, o jornal Folha de S.Paulo noticiou que a Universidade de São Paulo já dominava a tecnologia da produção de pele artificial e como este recurso pode ser útil para testes em laboratório. Em reportagem deste final de semana, o Estado de S.Paulo divulgou entrevista com o biólogo brasileiro, pesquisador do autismo na Universidade da Califórnia, Alysson Muotri, que desenvolveu uma técnica baseada em células-tronco para reproduzir neurônios, a fim de realizar testes de medicamentos, depois de anos sem conseguir avanços utilizando bichos como cobaias. Há doenças que simplesmente não podem ser reproduzidas em animais. O autismo é uma delas. Segundo Muotri, realizar testes a partir de células-tronco pode ser o futuro da medicina – e a chave para poupar as vidas de milhares de animais.

Em entrevista ao Fantástico, o médico Fabio Jatene disse que, se o Brasil sair “melhor” (ou mais maduro, como se pode entender) do episódio do resgate dos beagles e coelhos em São Roque, então terá valido a pena a invasão ao Instituto Royal. Na fala do médico, subentende-se a importância da tão necessária discussão que envolve essa complexa trama de acontecimentos.


Erika Horigoshi é jornalista, revisora e editora na Texto&Contexto Comunicação Editorial, além de pesquisadora da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Twitter: @ehorigoshi.
 

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